Explicando
o Direito Autoral
Assim como em qualquer país, as discussões
éticas sobre grampeação no Brasil são
um tema periodicamente recorrente, uma vez que o esporte constantemente
recebe novos adeptos com seus questionamentos a respeito de
diversos temas.
Com este texto a FEMERJ procura explicar como o direito autoral
funciona e com isto evitar maiores dúvidas - e até
algumas discussões – a esse respeito.
Lembramos também que o direito autoral não é
perfeito, mas é a melhor solução existente
para se manter uma convivência baseada no respeito mútuo
entre os escaladores. É uma ética que vale igualmente
para todos.
O que é o Direito Autoral?
Ao contrário do que o nome faz parecer, o direito autoral
não é um direito e sim um princípio ético.
Ele diz que nenhuma via de escalada pode sofrer alterações
sem a autorização do conquistador. Isto é,
ninguém deve adicionar ou retirar grampos sem consultar
antes o autor da via.
Quando ele foi criado?
Esta é uma prática presente no nosso montanhismo
há décadas, e pelo menos desde os anos 40 os
escaladores respeitam a vontade dos conquistadores. Na década
de 90 esta tradição ganhou o apelido de “direito
autoral”, mas o seu conteúdo não mudou.
O direito autoral tem a ver com a
Lei de Direitos Autorais?
Não. A Lei de mesmo nome dá direito de propriedade
a obras de criação intelectual, envolvendo inclusive
por um certo tempo o ganho financeiro por parte do autor.
Nas escaladas o conquistador não é dono da parede
e nem tem direito de restringir o acesso à via a quem
quer que seja. Ele tem apenas direito sobre a forma e o nome
da via, isto é:
- é ele que define a posição e diâmetro
dos grampos;
- a trajetória da via é aquela que ele seguiu
na ocasião da conquista;
- é ele quem escolhe o nome da via.
O que acontece se o conquistador
não está acessível?
Se todos os conquistadores faleceram ou deixaram o esporte,
um dos seguintes casos acontece:
- Muitos escaladores pertencem a clubes de montanhismo, e
em geral eles ‘doam’ a via ao clube, que normalmente
faz a sua manutenção e divulgação.
Na falta do conquistador, é o clube quem tem o poder
de decisão.
- A FEMERJ criou uma croquiteca oficial de vias disponível
na sua página da internet, onde os escaladores deixam
os croquis de suas vias mostrando a grampeação
que desejam para elas. Na falta do conquistador, a quantidade
e posição dos grampos neste croqui é
a que deve ser seguida.
- A comunidade de alguma forma se reune e toma a decisão.
Nesta decisão, a FEMERJ defende que se siga os princípios
da UIAA expressos no documento “To Bolt Or Not To Be”,
disponibilizado na página da FEMERJ em português
e no original em inglês.
E quando houver discordância
entre os conquistadores?
É a maioria simples que decide. Para este fim, considera-se
conquistador de uma via aquele que conquistou pelo menos um
lance, colocando uma proteção (fixa ou móvel).
Pessoas citadas em croquis como ‘colaboradores’
não se enquadram neste caso, a não ser que os
conquistadores assim decidam.
O conquistador pode fazer qualquer
modificação na sua via?
Sim, mas normalmente não é considerado ético
que ele cometa certos exageros, como adicionar ou retirar
um número excessivo de grampos – isto é,
quando ele não está fazendo ajustes na sua via
mas sim desfigurando-a completamente. Casos onde isto é
particularmente grave são: a retirada excessiva de
grampos se isto causar um aumento artificial no grau de exposição
da via; e a grampeação, excessiva ou não,
de fendas.
Não se pode esquecer que o direito autoral só
existe porque faz parte da ética local, e estas atitudes
vão contra outros pontos desta mesma ética.
O que é a manutenção
de vias?
É retirar uma proteção fora de condições
de uso e substituí-la por outra nova de mesmo tipo
e diâmetro no mesmo lugar. Este é um conceito
importante, pois já houve casos em que vias foram alteradas
dizendo-se estar fazendo manutenção.
É preciso consultar o conquistador
na manutenção?
É considerado de boa educação consultar
o conquistador, e recomendamos que isto seja feito. Mas não
é obrigatório.
Quem mantém as vias?
Tradicionalmente os conquistadores o fazem, mas esta não
é uma obrigação deles. Cabe à
comunidade de escaladores manter as vias, já que todos
usufruem delas. Qualquer um pode fazer a manutenção
de uma via, deste que tenha bastante experiência e condições
técnicas para tal – afinal um grampo mal batido
coloca em risco a vida de outros escaladores.
Qual a atitude da FEMERJ quando o
direito autoral é desrespeitado?
A FEMERJ não se propõe a ter poder de polícia
sobre a prática da escalada, assim como não
cria leis obrigatórias. Ela faz recomendações
baseadas na ética vigente, e repudia publicamente o
rompimento desta ética. A federação procura
ter um papel educativo e de conciliação, tentando
convencer pelo diálogo e não pela imposição.
Esta postura tem sido bastante frutífera, visto os
casos de desrespeito à ética na grampeação,
apesar do aumento de praticantes do esporte, terem sido raros
ultimamente.
Produzido pela FEMERJ – Abril
de 2003
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