ALGUMAS
CARACTERÍSTICAS DAS PLANTAS SOBRE AS ROCHAS
Por Katia Torres Ribeiro
As rochas estão por todo lugar, e hoje
são um dos ambientes terrestres mais bem preservados
de todo o planeta, sendo assim importantes refúgios
para muitas plantas sensíveis ao fogo, ao gado e a
várias outras atividades humanas. Na África
do Sul, por exemplo, país quase todo varrido por incêndios,
as plantas sensíveis ao fogo estão quase sempre
confinadas nas paredes rochosas; na China acontece o mesmo,
seu território foi praticamente todo convertido em
áreas de agricultura, e somente as rochas e as montanhas
elevadas abrigam uma vegetação original, mesmo
assim bastante atingida pelos caçadores de bonsais[1].
Em diversos estados do Brasil, principalmente
no nordeste, toda a área plana foi convertida também
em pastos ou plantações, e muitas vertentes
de montanhas são alcançadas pelas cabras e pelo
fogo, de modo que a escassa vegetação original
fica quase sempre restrita às paredes rochosas de difícil
acesso[2]. Em um levantamento desse tipo de vegetação
feito no maciço do Itatiaia, foram encontradas 114
espécies em apenas 800m2, que representam cerca de
25% do total de espécies do planalto[3],[4]. No incêndio
de 2001, as manchas de vegetação sobre rocha
não queimaram, o que mostra mais uma vez a importância
das rochas como refúgio para muitas plantas.
A divulgação e crescente popularização
dos esportes de aventura e ao ar livre vêm ameaçando
as áreas naturais em geral, e também a vegetação
sobre rocha, que tem aí seu maior fator de impacto[1],[5],
pelo menos nas zonas temperadas. No Brasil, é freqüente
também a retirada de plantas para o comércio
ilegal, e são muitos os relatos de incêndios
propositais nas paredes rochosas no nordeste e no Espírito
Santo[6], bem de acordo com a piromania nacional.
O que as plantas sobre
rocha têm de especial?
As plantas encontradas nos paredões podem ser rupícolas,
quando crescem diretamente sobre a rocha, ou saxícolas,
quando se localizam em pequenos platôs ou fendas com
solo. Nessas situações, a água que chega
escoa rapidamente e os nutrientes são escassos. Por
isso, as plantas crescem bem devagar, e muitas têm adaptações
especiais para lidar com a escassez de água, como é
o caso dos cactos e bromélias formadoras de tanques,
que armazenam água, ou das orquídeas e bromélias
do gênero Tillandsia, que conseguem captar rapidamente
a umidade das nuvens, ou ainda as velózias (canelas-de-ema)
e capins-ressurreição, que toleram a dessecação
violenta das folhas com posterior re-hidratação
das mesmas folhas. Algumas plantas são tão especializadas
neste ambiente limitante que continuam crescendo devagar,
mesmo se adubadas e irrigadas1. A bromélia Vriesea
goniorachis, aquela espécie de folhas pontudas, comum
nas faces norte dos morros do Rio de Janeiro, faz parte de
um dos grupos mais especializados no hábito rupícola,
ainda muito pouco estudado taxonomicamente (no que diz respeito
à distinção entre as espécies
e seus nomes), mas se sabe que cresce de forma extremamente
lenta e resiste à adubação também[7].
Não é fácil se fixar na
rocha. Imaginem quantas sementes se perdem por secura ou enxurrada
para que uma se fixe e, finalmente, cresça. Basta observar
uma via inacabada na face S do Pão de Açúcar,
o Paredão Universal, para constatá-lo: ela começou
a ser conquistada na década de 60, mas depois foi abandonada
e até hoje não apresenta sinal claro de recuperação
da vegetação luxuriante que cobre esta face
úmida da montanha.
É muito difícil para uma semente
conseguir viajar de uma montanha para outra e, além
disso, chegar a germinar. Talvez por isso haja tantas plantas
que são específicas de uma ou de poucas montanhas
adjacentes. Plantas em diferentes montanhas, quando não
trocam sementes ou pólens, vão se tornando cada
vez mais diferentes até que formam espécies
distintas, e assim surgem os muitos casos de endemismo restrito
(espécies só encontradas em uma única
montanha).
Depois que algumas espécies mais tolerantes
se fixam, começa a haver a interceptação
de partículas de rocha, de húmus e detritos
de plantas, e assim surge um protossolo, em que vão
crescer outras plantas, como algumas gesneriáceas,
bromélias e aráceas. Em geral, há primeiro
a entrada de liquens e musgos, que crescem extremamente devagar
(alguns liquens crescem apenas 1mm por ano!). Essas plantinhas
minúsculas vão decompondo a rocha química
e fisicamente, e vão juntando um pouco de solo embaixo
de si, e assim também ajudam as sementes das outras
espécies a se fixar. Estas então germinam e
começam a crescer de forma bastante lenta também.
Algumas delas crescem prostradas na rocha, e formam algo parecido
com um tapete, que ajudam ainda mais a fixar partículas
de solo, e mais e mais espécies conseguem se estabelecer
ali. No entanto, muitas vezes esses extensos tapetes estão
precariamente presos na rocha, quase que apenas aderidos,
e sua retirada, bastante fácil, interrompe um processo
de décadas ou mesmo de séculos de duração.
Em resumo, podemos dizer que essas espécies
crescem devagar, têm dificuldade de estabelecimento
(germinação + fixação) e, portanto,
``investem'' na longevidade. Estas plantas são, no
mais das vezes, muito velhas! Ruy Alves[8], pesquisador do
Museu Nacional do Rio de Janeiro, estimou a idade das canelas-de-ema
do Pão de Açúcar, aquelas pequenas plantas
de flores brancas (Vellozia candida) no caminho do Costão
e Paredão São Bento, em cerca de 150 anos, e
em cerca de 500 anos as canelas-de-ema gigantes da Serra do
Cipó. Larson e colaboradores1, que são biólogos
e também escaladores, do Canadá, mostram fotos
de árvores encravadas em fendas das falésias
de Niágara, totalmente depredadas por rapéis
feitos em suas raízes e caules (além de podas
de galhos para dar passagem cômoda), sendo que algumas
tinham 1700 anos de idade e eram pequeninas como arbustos!
Casos similares de árvores antigas podem ser possivelmente
encontrados nas grotas e fendas das montanhas altas do Brasil,
mas ainda não se têm dados sobre as mesmas.
Por que as montanhas
têm plantas diferentes umas das outras?
Muitos fatores determinam quais plantas podem ser encontradas
em uma certa montanha. Além do acaso e das chances
das sementes terem chegado lá, as plantas são
afetadas pelo regime de luz, pela rugosidade da rocha (tamanho
dos cristais da rocha e forma de fragmentação),
presença de fendas e outras concavidades, composição
química da rocha e outros detalhes do relevo, além
da presença de dispersores e polinizadores. Plantas
muito diferentes são encontradas sobre quartzito, granito
ou arenito, por exemplo[9].
Também é bastante evidente o
papel da insolação, da declividade e da umidade.
No hemisfério sul, as paredes voltadas para o norte
são as que recebem mais horas de sol e, nos trópicos,
menos espécies conseguem crescer nestas faces, por
conta do calor e da falta d´água. O contrário
acontece nas regiões frias, onde mais espécies
são encontradas nas faces que recebem mais sol. A declividade
também define bastante quais espécies podem
ser encontradas. Algumas delas só conseguem crescem
em paredes verticais, enquanto outras dependem de um pouco
de terra, e são mais comuns nas paredes menos inclinadas
(as grandes bromélias, muitas canelas-de-ema). A umidade
depende dos ventos, da insolação e da declividade
da rocha, principalmente. Às vezes podem ser encontradas
grandes diferenças em umidade em paredes próximas,
como é o caso dos morros ao longo do litoral do Rio
de Janeiro. As faces voltadas para o sul são geralmente
atingidas por ventos vindos do mar, úmidos, e por conta
disso, a vegetação nessas faces costuma ser
luxuriante, com muitas espécies e grande densidade.
Das 12 espécies de orquídeas existentes nas
rochas do Pão de Açúcar, apenas duas
ocorrem na vertente norte, enquanto as outras 10 habitam apenas
as vertentes voltadas para o quadrante sul[10].
A vegetação sobre rocha do sudeste
do Brasil e de outros países tropicais da América
do Sul é extremamente diversa, e rica em endemismos[2].
Embora as rochas do oeste da África sejam por vezes
muito similares às do Brasil, lá as mesmas espécies
tendem a ser encontradas em longas distâncias, e muitos
afloramentos rochosos compartilham aproximadamente os mesmos
conjuntos de espécies. No Brasil, cada montanha ou
conjunto de montanhas tem suas espécies particulares,
principalmente de bromélias, orquídeas, samambaias
e canelas-de-ema.
A fragilidade da vegetação
Essa vegetação sobreviveu relativamente bem
até hoje, mas na verdade é extremamente frágil.
A fragilidade tem dois componentes importantes: a facilidade
para remover a vegetação (resistência)
e o tempo que ela leva para se recuperar (resiliência)[11].
Para retirar a vegetação sobre rocha não
são necessárias nem grandes ferramentas, nem
tratores, nem fogo, como em uma floresta. Basta a habilidade
de subir (ou descer...) na rocha e a força de algumas
pessoas, ou mesmo a passagem freqüente de cordas para
causar um grande estrago. Já o tempo para a vegetação
se reconstituir por meios naturais ainda não foi estimado,
mas é certamente muito longo. Em locais com muitas
fendas a vegetação pode voltar ao que era antes
em menos de 100 anos[12], mas em superfícies lisas
os processos são mais lentos. Esses tempos não
foram medidos ainda justamente por estarem além da
duração das nossas vidas, e pelo fato dessa
vegetação muitas vezes ter sido vista com baixo
interesse.
A recuperação destas áreas
é impressionantemente difícil e lenta, e no
caso de se querer apressá-la, muito cara. O que é
destruído agora tem de ser considerado como perda total,
a não ser que sejam implementados programas intensivos
de recuperação.
A velocidade com que novas vias vêm sendo
estabelecidas ameaça a estabilidade da vegetação
e mesmo a existência de muitas espécies, e é
preciso lutar por normas de conduta que minimizem o impacto
em vias novas ou já criadas, ao mesmo tempo em que
se tenta determinar um patamar máximo de retirada de
vegetação das paredes.
Infelizmente, com os dados de que dispomos
hoje, que são poucos, não é possível
estabelecer limites de uso com muita objetividade. Os trabalhos
de Rogério de Oliveira[13] foram os únicos no
Brasil a fazerem uma amostragem sistemática das plantas
sobre rocha também nas faces mais íngremes.
Em geral, as coletas botânicas e os estudos ecológicos
feitos com estas plantas se restringem às partes das
montanhas que são alcançadas a pé com
facilidade por um leigo em escaladas. Por esta razão,
estima-se que quase todos os conjuntos de morros e montanhas
no sudeste do Brasil têm espécies novas ainda
por descobrir e descrever.
É mais fácil destruir e não
se importar com plantas que parecem um simples mato. E o que
é o mato? Pra maior parte das pessoas, é aquilo
que vive em qualquer lugar, que cresce em abundância,
que ``dá como mato''. Decididamente este não
é o caso das plantas sobre rocha, muitas delas assim
tão pequenas e na verdade mais velhas que nossas bisavós,
e que conhecemos tão pouco. É responsabilidade
de todos nós poupar e ensinar os outros a proteger
essa vegetação da nossa sempre crescente velocidade.
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Referências
[1] Larson, D.W., Matthes, U. &
Kelly, P.E. (2000) Cliff Ecology. Pattern and Process in Cliff
Ecosystems. Cambridge Studies in Ecology. Cambridge University
Press, Cambridge. 340p.
[2] Porembski, S., Martinelli, G., Ohlemuller,
R. e Barthlott, W. (1998) Diversity and ecology of saxicolousvegetation
mats on inselbergs in brazilian Atlantic forest. Diversity
and Distributions, 4, 107-119.
[3] Ribeiro, K.T., Medina. B.O. e Scarano,
F.R. (2001) Rupicolous vegetation of the Itatiaia Plateau:
Floristic composition, endemism and its relationship with
the Atlantic Forest, Journal of Biogeography.
[4] Martinelli, G. & Vaz, M.S. (1988)
Padrões fitogeográficos em Bromeliaceae dos
campos de altitude da floresta pluvial costeira do Brasil,
no estado do Rio de Janeiro. Rodriguésia, 64/66, 3-10.
[5] Nuzzo, V.A. (1996) Structure of cliff
vegetation on exposed cliffs and the effect of rock climbing.
Canadian Journal of Botany, 74, 607-617.
[6] Relatos de André Ilha, Kate Benedict
e Pedro Nahoum
[7] Informação de Pedro Nahoum.
[8] Alves, R.J.V. (1994) Morphological age
determination and longevity in some Vellozia populations in
Brazil. Folia Geobotanica Phytotaxa Praha, 29, 55-59.
[9] Porembski, S., Barthlott, W., Dörrstock,
S. & Biedinger, N. (1994) Vegetation of rock outcrops
in Guinea: granite inselbergs, sandstone table mountains and
ferricretes - remarks on species numbers and endemism. Flora,
189, 315-326.
[10] Miranda, F.E.L. e Oliveira, R.O. (1983).
Orquídeas rupícolas do Morro do Pão de
Açúcar, Rio de Janeiro. Atas da Sociedade Botânica
do Brasil, 18, 99-106.
[11] Begon, M., Harper, J.L. e Townsend,
C.R. (1996) Ecology, 3rd edn, Blackwell Science Ltd, Oxford.
[12] Ursic, K., Kenkel, N.C. e Larson, D.W.
(1997) Revegetation dynamics of cliff faces in abandoned limestone
quarries. Journal of Applied Ecology, 34, 289-303.
[13] Carauta, J.P.P. e Oliveira, R.R. (1984)
Plantas vasculares dos morros da Urca, Pão de Açúcar
e Cara de Cão. Rodriguésia, 36, 13-24.
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