Recomendações
Para a Conquista e Regrampeação de Vias de Escalada
Observações iniciais:
1) A rigor não ha regras
rígidas a serem seguidas em conquistas. A diversidade
de situações com que um escalador pode se deparar
em uma parede virgem somada à quantidade de soluções
que ele, com sua criatividade e estilo, pode encontrar para
vencer os lances, tornam qualquer tentativa de padronização
de procedimentos ineficaz e indesejável. Isto vale
por exemplo para a distância entre os grampos e o tipo
de proteção utilizada.
2) É comum ocorrer, no entanto, que
determinadas escaladas apresentem problemas “técnicos”
que surgem não como conseqüência do estilo
da via, mas por desatenção ou falta de informação
do conquistador. Assim sendo, ele acaba cometendo erros não
intencionais que podem causar problemas não previstos
por ele a outras cordadas no futuro.
3) Assim sendo, o objetivo destas recomendações
é fazer com que os escaladores que estão conquistando
uma nova via se lembrem de alguns princípios que tornarão
a sua conquista tecnicamente “mais eficiente”,
beneficiando assim a todos. Não estamos aqui criando
normas ou leis, pois a FEMERJ defende o direito autoral de
conquista e considera a palavra dos conquistadores soberana
em relação à forma final da via que conquistaram.
Trata-se apenas de reforçar a lembrança de alguns
bons princípios técnicos que, como dito acima,
podem ajudar a tornar a via conquistada mais interessante
e com menos “armadilhas”.
4) Por fim gostaríamos de lembrar
que estas notas NÃO têm como objetivo ensinar
a conquistar vias de escalada. Tal aprendizado é um
processo longo e difícil, que deve ser feito com o
acompanhamento de pessoas experientes.
Boas escaladas,
Depto Técnico da FEMERJ
Recomendações para conquista:
I – Procure posicionar
os grampos de modo a minimizar o atrito da corda, colocando
cada um tão diretamente acima do anterior quanto possível.
II – Não tenha preguiça
de fazer ajustes na via depois de passar nos lances. Por exemplo:
muitas vezes se faz um lance mais longo na impossibilidade
de se parar para bater um grampo, e o lance permanece assim,
mesmo que isto não tenha sido planejado por você.
O resultado é que lances mais delicados ficam sem proteção.
Não é anti-ético, e nem representa qualquer
demérito, o conquistador reposicionar ou densificar
a proteção depois de conquistado o lance.
III - Bata grampos onde a rocha é
mais sólida. Procure mantê-los longe de trechos
de rocha em decomposição e obviamente de lacas
de pedra. Evite também batê-los imediatamente
acima de agarras ou aderências utilizáveis, para
que estas não fiquem inacessíveis, dificultando
o lance.
IV – Em fendas, use sempre proteção
móvel. As únicas exceções a esta
regra são aquelas fendas cobertas por vegetação
ou que apresentam suas paredes em decomposição,
que tornam impossível a colocação de
proteções seguras. Proteções móveis
também podem ser usadas com eficiência em outras
situações, como é o caso de hexentrics
em “copinhos” de calcário; fitas ou cordinhas
passadas em torno de lacas ou bicos de pedra; e tricams e
friends em buracos.
V – Posicione os grampos de modo que
o comprimento normal de uma costura seja suficiente para evitar
que a corda arraste em arestas agudas.
VI – Leve em consideração
o posicionamento das agarras e do escalador que vai colocar
a costura ao repetir a via. Se ele puder costurar de uma posição
confortável, em boas agarras e sem a necessidade de
se esticar excessivamente, melhor.
VII – Cortar quedas de fator 2 tão
rápido quanto possível, colocando a primeira
proteção não muito distante da saída
da parada. Isto protege todo o sistema de segurança
em caso de queda.
VIII – Considerar o uso de paradas
duplas quando necessário. Este foi um assunto gerador
de muitas polêmicas ao longo dos últimos anos.
No entanto, a experiência pessoal e o histórico
das vias estabelecidas há anos levam tradicionalmente
os conquistadores mais experientes a avaliar caso a caso esta
necessidade. Fatores como a inclinação da parede,
a qualidade da rocha e o tipo de proteção utilizada
influem nesta decisão. Leve-os em consideração
e, em dúvida, peça a opinião de outros
escaladores experientes.
IX – Lembre-se: Grampos de 3/8”,
“5/16” e 1/4” NÃO são considerados
proteções “à prova de bomba”
como os grampos de 1/2” e chapeletas.
X – Sempre que possível
coloque as proteções em locais de fácil
identificação visual, evitando locais encobertos
pela vegetação ou pela própria rocha.
XI - Boa proteção próximo
a base, platô, aresta, ou algo que possa colocar em
risco a segurança do escalador numa eventual queda.
XII - Procurar o melhor ponto de parada possível.
Platôs, por exemplo, são pontos naturais onde
se faz uma parada, mesmo que às vezes estejam a uma
distância menor do que o comprimento da corda. Lugares
protegidos de quedas de pedra também devem receber
prioridade, assim como pontos onde guia e participante não
percam contato visual ou de voz.
XIII - Não destruir vegetação
existente, de espécie alguma. Ao fazer uma conquista,
evite os locais com muita vegetação, pois a
flora rupícola (aquela que ocorre nas paredes rochosas)
é muito frágil e, com freqüência,
inclui espécies raras e endêmicas. Evite também
bater grampos apoiado em platôs de vegetação,
pois com o uso contínuo eles podem se soltar e cair,
prejudicando a escalada e gerando um óbvio impacto
ambiental.
XIV – Em hipótese alguma cave
ou quebre agarras, ou aplique agarras artificiais em paredes
naturais, pois isso significa uma descaracterização
permanente e definitiva das mesmas.
XV – Ao usar grampos ou chapeletas,
sempre dê preferência aos de aço inoxidável,
pois isso evitará o trabalho e a despesa de trocá-los
com freqüência, além de preservar a superfície
das paredes rochosas de furos desnecessários e das
inconfundíveis marcas de ferrugem.
XVI – Grampos devem ser batidos até
o ponto em que o seu olhal encoste na pedra. Se o olhal não
encostar na pedra, isso gera um perigoso efeito alavanca,
que pode comprometer a segurança. Por outro lado, não
cave um sulco para que o olhal “entre” na parede
nos casos em que o furo ficar muito longo, pois isto, além
de não aumentar em nada a segurança, danifica
uma superfície de rocha muito maior do que o necessário.
XVII - Faça um croqui oficial de sua
conquista e divulgue no site da FEMERJ, que mantém
uma croquiteca digital do estado do Rio de Janeiro para este
fim. No croqui oficial você registra a configuração
que deseja para sua escalada e os nomes dos conquistadores
- além, e claro, de divulgá-la para a comunidade.
Finalização
da conquista
Ao considerarmos uma via como finalizada, devemos estar certos
da qualidade total de seu desenvolvimento, dos pontos de proteção,
paradas, distância entre lances, etc. Por esta razão
é sempre bom considerarmos a opinião de outros
escaladores, tanto em relação à proteção
e trajeto como na avaliação do grau sugerido
pelo conquistador.
Em relação à graduação,
é bom considerar que qualquer movimento é mais
fácil numa via já conquistada do que numa conquista,
onde muitas decisões são tomadas sob tensão
e a escalada é feita em rocha virgem – portanto
suja e às vezes quebradiça. Em certos momentos
até o simples abrir do gatilho de um mosquetão
é um verdadeiro sacrifício. Por esta razão,
há situações em que os conquistadores
determinam um certo grau para a “sua via” e logo
na primeira repetição outros escaladores acabam
por decotá-la, gerando em certos momentos até
algum desacordo. Mas isto se deve apenas ao fato de que, no
momento da conquista, a via realmente poderá parecer
mais difícil do que numa repetição.
Recomendações para regrampeação
I - Quando trocar um grampo?
A proteção deve ser trocada quando mostrar sinais
de oxidação, quando estiver entortada ou quando
estiver solta. Em vias muito antigas, proteções
que estejam aparentemente em bom estado podem estar danificadas
internamente, sendo portanto o tempo de uso da proteção
um fator a se levar em consideração.
II – Não amasse grampos. Procure
arrancá-los ou quebrá-los próximo à
base, tão perto da parede quanto possível.
III – Se você iniciou a retirada
ou rompimento de uma proteção, não deixe
o trabalho pela metade. Deixar uma proteção
semi-arrancada na parede pode colocar outras pessoas em perigo.
IV - Sempre que possível aproveite
o buraco do grampo anterior, de modo a não fazer um
furo a mais na parede.
V – Tape o buraco ou cicatriz do grampo
retirado. Uma pequena quantidade de massa epoxi coberta com
o pó da própria pedra proporciona uma camuflagem
bastante eficiente, reduzindo quase que completamente o impacto
visual do grampo arrancado.
VI – Substitua uma peça por
outra igual – grampos por grampos de mesmo diâmetro
e chapeletas por chapeletas, a não ser quando autorizado
pelo conquistador.
VII – A fixação de proteções
por pressão cria na rocha um cone de influência
dentro do qual ela é mais frágil e passível
de ser fraturada. Assim sendo, a não ser que você
esteja reutilizando o buraco, coloque o grampo novo a uma
distância mínima do antigo de 20 vezes o seu
diâmetro. Esta distância no caso de grampos de
½”, por exemplo, será de 25cm.
VIII – Procure sempre que possível
usar grampos ou chapeletas de aço inoxidável.
IX – É uma regra de bom convívio
e educação consultar o conquistador ou a comunidade
local de escaladores antes de iniciar a troca de grampos.
Um dos motivos para se fazer isso é que alguns grampos
em mal estado podem ser fruto de intermediações
não autorizadas pelo conquistador, e que então
devem ser retirados sem substituição.
X – Procure usar uma proteção
de uma cor parecida com a da rocha naquele local, de modo
a diminuir o impacto visual.
XI - No caso de grampos muito antigos e que
possuam portanto valor histórico, procure devolvê-los
aos conquistadores ou, na sua ausência, ao clube ao
qual eles pertenceram ou ainda à associação
local de escaladores.
XII – Algumas das recomendações
para conquistas acima valem também para regrampeação.
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