"To Bolt Or Not To
Be"
pela Comissão de Montanhismo da UIAA
Tradução: André Ilha
1) Introdução
Este documento foi produzido em resposta
aos apelos de associações nacionais de montanhismo
por conselhos no uso de proteções fixas. As
opiniões sobre este assunto são fortes (ver,
por exemplo, o Boletim 3/98 da UIAA Montanhas
em Aço e Ferro). Algumas destas organizações
estavam preocupadas com o fato de que, sem um consenso entre
escaladores e montanhistas, outras instituições
tentariam impor regras às nossas atividades. Em algumas
regiões alpinas disputas maiores surgiram entre escaladores
do tipo plaisir (prazer) e puristas
escaladores que preferem um estilo tradicional de
praticar a escalada e o montanhismo. Esta disputa desencadeou
um círculo vicioso de remoções, adições
e novas remoções de grampos em certas vias.
Em 1998, a pedido da Comissão de
Montanhismo da UIAA, os clubes alpinos da Alemanha e da
Áustria, que já estavam discutindo este tópico,
criaram um grupo de trabalho para rascunhar um documento
balizador. Uma ampla gama de pontos de vista foi considerada
pelo grupo. Além disso, informações
sobre o uso de grampos no maciço do Mont Blanc foram
apresentadas em encontros como o da ENSA (Escola Nacional
de Esqui e Alpinismo, da França) em 12-13 de novembro
de 1998.
O documento foi então apresentado
no Encontro e Seminário Internacional de Escalada
Invernal de 1999 em Aviemore, Escócia. Este encontro
contou com mais de 100 escaladores de 28 países,
que por unanimidade endossaram o documento. Ele conclama
os escaladores de todo o mundo a considerarem-no detalhadamente,
de tal forma que um consenso baseado na boa prática
pudesse ser estabelecido e a liberdade para praticarmos
nossas atividades protegida.O documento foi finalmente adotado
pelo Conselho da UIAA em maio de 2000, durante o encontro
de Plas y Brenin, Wales.
2) Preâmbulo
A escalada é um esporte popular, praticado por toda
a vida, caracterizado por relacionamentos humanos duradouros,
contato direto com a natureza e a intensidade da atividade
física. A escalada é um fator estabilizador
para muitas pessoas, proporcionando-lhes um senso de objetivo.
Do ponto de vista sócio-político, a escalada
contribui para a saúde pública ao contrabalançar
os efeitos da falta de atividade física. Além
disso, psicólogos e educadores reconhecem que escalar
ao ar livre reforça traços positivos de caráter
como confiabilidade, senso de responsabilidade e a capacidade
de trabalhar em equipe.
Escalar
montanhas dá a chance aos indivíduos
especialmente os mais jovens de desenvolver o seu
senso de responsabilidade. Esse aspecto é mais ou
menos pronunciado dependendo do estilo de escalada envolvido.
O grau de responsabilidade requerido numa escalada depende
da quantidade de proteção na via: escalar
vias de rocha com pouca proteção exige uma
medida especialmente alta de ponderação por
parte do escalador, para a sua própria segurança
e a de seu parceiro.
Observado
o respeito pelo meio ambiente natural, o livre acesso às
área alpinas selvagens é um direito fundamental.
Possibilidades suficientes para a prática do esporte
da escalada em rocha só podem ser garantidas se este
direito à liberdade de movimento for garantido, e
sofrer restrições apenas em casos isolados
e bem fundamentados, considerados como absolutamente necessários.
Assim
como a caminhada, a escalada em rocha na Europa é
um fator econômico significativo nos baixos e altos
maciços montanhosos. Devido à natureza econômica
de muitas dessas regiões, escaladores e familiares
que com eles viajam são, freqüentemente, uma
fonte essencial de renda, tanto para o abastecimento dessas
áreas quanto para o decorrente comércio varejista.
Neste
documento, as medidas de atualização (redevelopment)
referem-se à colocação de proteção
fixa em vias de escalada em rocha em consonância com
os padrões correntes de segurança técnica.
3) A Restauração de Vias de Escalada em Rocha
Na evolução da escalada em
maciços montanhosos baixos, bem como nas áreas
baixas dos maciços elevados, muitos escaladores desenvolveram
uma predileção por vias esportivas bem protegidas,
ou vias divertidas (fun routes). Um grande número
de escaladores alpinos preferem que hajam bons grampos nas
enfiadas e paradas das vias de escalada em rocha mais populares.
Por outro lado, um bom número dos
escaladores que freqüentam as montanhas estão
interessados na manutenção do caráter
original das áreas e de suas escaladas em rocha.
Eles preferem que não existam grampos, tanto parcial
quanto integralmente.
A quantidade e a qualidade das proteções
fixas de uma escalada em rocha é um instrumento efetivo
para influenciar a sua popularidade: vias bem protegidas
são repetidas mais freqüentemente do que aquelas
mal protegidas. Desta forma, em áreas ecologicamente
sensíveis a proteção permanente deve
ser reduzida a um mínimo. Por outro lado, em áreas
menos sensíveis um maior número de possibilidades
para a escalada pode ser criado pelo estabelecimento de
vias de rocha bem protegidas. Áreas de escalada desenvolvidas
sob estas diretrizes não representam uma ameaça
ao meio
ambiente.
Uma pluralidade
dos vários estilos de escalada é desejável
e bem-vinda como uma expressão das legítimas
preferências individuais dos escaladores. Para permitir
esta pluralidade, nós fazemos as seguintes recomendações
(grifo dos autores):
a) As medidas
de atualização devem ficar limitadas a uma
seleção de vias de escalada bem freqüentadas.
b) Certas áreas
alpinas, montanhas ou partes de montanhas podem ser excluídas
destas medidas como forma de reterem o seu caráter
original.
c) Vias de escalada em rocha
que representam marcos na história alpina (por exemplo,
a Face Norte do Eiger/via Heckmair, Laridererverschneidung,
Esporão Sul do Marmolata, Pumprisse, Grandes Jorasses/Esporão
Walker, Face Norte do Dru, Travessia do Grepon ou do Meije)
devem ser deixadas em seu estado original. Este princípio
também se aplica para as vias de escalada em rocha
de grande significado local (como a via Gelbe Mauer Direta,
no Untersberg, e a Fissura Batert, no Gehrensptize).
d) Um princípio básico
da atualização das escaladas em rocha é
que o caráter da via deve permanecer intacto:
A linha da conquista
não deve ser alterada.
Vias e enfiadas de corda
individuais conquistadas limpas (usando apenas
nuts, friends, fitas etc.) não devem receber grampos
adicionais.
Grampos não serão
colocados em trechos que podem ser feitos com material móvel
por escaladores do grau daquela via.
Lances longos não
devem ser neutralizados com grampos adicionais (não
mate um lance longo).
A dificuldade de uma
via não deve ser alterada através das medidas
de atualização. Passagens artificiais deixadas
pelos conquistadores devem continuar podendo ser feitas
em artificial após a atualização. O
número de proteções fixas numa via
atualizada deve ser menor do que o número de peças
original. Por exemplo, diversos pítons podem substituídos
por um único grampo.
Para todas as medidas
de atualização, somente material que atinja
os padrões europeus e da UIAA devem ser utilizados.
A atualização deve ser levada a cabo dentro
dos padrões reconhecidos sob os auspícios
da organização administrativa (dos escaladores).
Uma via não deve
ser atualizada contra o desejo de seu conquistador.
e) O método
válido para atualizações em uma dada
área de escalada é definido com base
nas presentes recomendações pelos seus
escaladores experientes e pelos grupos de escalada locais,
se necessário em cooperação com as
autoridades responsáveis. Manter o poder de decisão
no nível local garante a cada área o seu próprio
caráter independente. As atividades das organizações
de escaladores devem ser coordenadas por um comitê
supra-regional, de forma a garantir os fluxos de informações
horizontais e verticais e para assegurar uma qualidade de
procedimentos uniformemente elevada. Em caso de conflito,
o comitê funcionará como mediador.
4) A Conquista de Escaladas
em Rocha
a) Em regiões alpinas, as conquistas
devem ser feitas exclusivamente de baixo para cima (sem
pré-fixações feitas com corda de cima).
b) Nas áreas excluídas das medidas
de atualização os grampos devem ser reduzidos
a um mínimo absoluto, e deve ficar a cargo de cada
conquistador(a) estabelecer o padrão da sua própria
via.
c) Não se pode acabar com o caráter
independente das vias adjacentes.
d) Especialmente nas zonas próximas aos vales,
ou em outras partes facilmente acessíveis das montanhas,
áreas especiais para escalada esportiva podem ser
estabelecidas desde que isso seja feito de uma forma
ecologicamente consistente e sem obstruir outras áreas
de escalada existentes. Essas medidas precisam ser aprovadas
pela organização de escaladores responsável
por aquela área.
Comissão de Montanhismo da
UIAA